Vergonha, você tem? Quem não tem vergonha? Durante a vida todos já tiveram pelo menos uma situação em que passaram vergonha. Eu tenho e não são poucas.

Empregos novos como estagiário onde eu, “menino guri”,entrei numa sala com pessoas (todas muito inteligentes, pelo menos mais que o estagiário) de diferentes culturas, ouvi assuntos que me pareciam muito, mas muito estranhos e fiz cara de que entendi.

– Pessoa inteligente disse: Leandro, por favor. Verifique com o cliente se já existe uma aprovação do layout do folder e me passa um feedback?

– Eu fingi que entendi: Ok.

É muito ridículo se eu pergunto: passar o que? Então eu faço cara que entendi, espero ela sair da sala, entro no Google (na época em que eu fazia estágio já existia essa benção) e descubro o que é o bendito feedback. Hoje percebo o quanto isso é simples, todos sabem o que é feedback, mas se não souberem eu não vou achar ridículo, terei compaixão e ajudarei, pois passei por esse sofrimento.

Já contei aqui uma história sobre o caqui (Salada de Frutas), hoje tenho uma divertida com goiaba. Em um emprego de Office boy eu recebi uma ordem para um serviço de muita importância para a empresa. A diretora me chama em sua sala e passa a missão: Vá até a quitanda e compre para mim duas laranjas e uma goiaba. Laranja tudo bem, eu manjo que é laranjadinha e redonda, mas goiaba, eu nunca gostei, portanto não sabia nem que cor era. Cheguei na quitanda, andei em direção as caixas de frutas posicionadas naquela bancada inclinada,plaquinhas e mais plaquinhas com os nomes de cada coisa.Fiz a colheita do solicitado, pesei, paguei e sai com sensação de missão cumprida.

Ao chegar no escritório entreguei as compras à diretora, ela sorriu e agradeceu enquanto eufui saindo feliz, mas antes de chegar na portaela disse:ei, ei, ei, o que é isso? Me direcioneiem câmera lenta e ao invés de responder, perguntei:não é uma goiaba?Resposta: isso é qualquer coisa menos uma goiaba!

Olhei a nota fiscal e veja só, aquilo que entreguei era umalima da persa”.Sei lá o que é isso, mas se hoje você colocar ao lado de uma goiaba eu me lasco de volta. Voltei na frutaria para fazer a troca e tive que passar a vergonha de perguntar: goiaba qual é? (Já imaginou que ridículo?) Ah fazer oque, eu não como isso, não tenho obrigação de saber também.

Tenho vergonha quando penso que os outros pensaram que eu sou um jacu. Só de ter essa vergonha eu já tenho vergonha que pense que sou um jacu (Oi? Ta confuso?). Sabe, uma vez fui a um cartório (não quando cai de bunda), entrei no elevador e solicitei a ascensorista (profissão rara): 7° andar, por favor. Se tem uma coisa que eu acho ridículo é a pessoa que desce no andar errado, não sei vocês, mas eu SEMPRE reparo. Nesse dia, não é que me distraí (coisa que NUNCA me acontecia) e desci no 6° andar?

Foi mais ou menos assim, a porta abriu no 6° andar e eu esbocei o movimento para sair. Nesse momento eu percebi que estava errado, mas com certeza alguém já teria reparado que eu ia sair (capaz que as pessoas ficam reparando isso, só eu mesmo). Pra não passar a vergonha de voltar o movimento e dizer “ops, não é o meu”, eu saí,mas saí confiante mesmo, com pé firme no andar e provando pra quem quisesse que eu ia mesmo nesse andar.

Quando desci estava todo confiante, porque eu imaginava que ia sair em um lugar com várias portas de escritório e ninguém iria ver que eu estava perdido,mas dei de frente com uma recepção de uma clínica de olhos que era dona do andar todo. A moça da recepção ficou me olhando pra me atender, é claro que eu não podia passar a vergonha de dizer para ela que desci no andar errado, mas também não podia nem falar com ela, afinal eu não tinha uma consulta marcada e ela iria perceber que eu desci no andar errado, manja? Bom, pra resolver fingi que era de casa, dei bom dia e passei por ela com tudo.

Muitos pacientes esperavam para ser atendidos na recepção quando entrei. Então,além da recepcionista, eu tinha que convencer a todos que não desci no andar errado.Andei até o final de um corredor bem longo e voltei,fiz isso como quem fosse de casa mesmo,entrei rapidinho só pra ”falar ali com o médico que eu já tenho liberdade” e saí (pelo menos era isso que eu queria que a menina da recepção e os pacientes pensassem).

Bom, problema resolvido no andar que desci, disfarcei bem (eu acho que disfarcei né) e me livrei. Mas inevitavelmente eu precisava ir até o 7° andar, onde era o cartório, e lá com certeza ia ter alguém que me viu há poucos instantes descer no 6° e essa pessoa ia, com certeza, zoar com a minha cara.Para que essas pessoas que perceberam que eu desci no andar errado pensassem que eu NÃO desci no andar errado, tirei um truque do bolso: eu tinha um colírio. Antes de entrar no cartório, parei na porta e apliquei as gotas na vista, só pra eles pensarem: ah não, ele precisava mesmo ir na clínica antes de vir aqui no cartório. Isso tudo SÓ EU SEI (e agora vocês) e com certeza não tinha ninguém cuidando se eu desci no andar errado.

Na verdade eu pareci um retardado pra recepcionista da clínica e um idiota pingando colírio na porta do cartório, tudo isso por simples medo de achar que as pessoas iriam reparar que desci no andar errado. Qual o problema de descer no andar errado?Bom, um salve para minha habilidade de criar as possibilidades dos pensamentos das pessoas em minha volta e ainda improvisar soluções.

Fiquei mesmo com muita vergonha em todas essas situações e em muitas outras. Em todas elas o melhor remédio sempre foi correr,fugir da situação o mais rápido e longe possível.Sentir vergonha de parecer um bobo!Em que outras situações você fica assim?Quando sentimos vergonha, até mesmo tendo razão, somos capazes de mudar de opinião, só para não parecer um ESTRANHO diante dos outros. O que nos faz sentir assim é a necessidade de parecer normal, mesmo que o normal não seja bom.

Uma época da minha vida ia pra escola de carona com meus vizinhos, o pai deles levava a gente no seu Passat, bem antigo. O barulho que o carro fazia era bem alto, fora quando dava uns estouros no escapamento, realmente estava picado na bala! Mas a carona só nos levava 95% do caminho, o restante do percurso era a pé mesmo, sabe por quê? Porque os meninos tinham vergonha de chegar na escola com aquele carro, pagavam mico. O pai, muito compreensivo, sabendo o que os filhos pensavam, nem sequer questionava a situação, simplesmente fazia como eles queriam, a poucos metros (uma esquina antes) nos deixava, com um olhar de tristeza, mas deixava.

Então disse Jesus: “Ainda essa noite todos vocês me abandonarão…” Mateus 26:31

Por vergonha, em situações tão pequenas deixamos até mesmo as pessoas que gostamos desapontadas, quantas vezes, por vergonha, magoou alguém querido?

Pedro respondeu: “Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei!” Mateus 26:33

A verdade é que quando somos testados diante dos “normais” lutamos a todo custo para não sermos tachados de “loucos”.

“Você também estava com Jesus, o galileu”. Mas ele disse: “Não sei do que estão falando”. Mateus 26:70

Até quando vamos ficar com vergonha? Sinto uma tristeza gigante quando penso que no final, quando o tempo se esgotar, alguns dos meus amigos dirão: “Senhor eu acredito agora, antes eu tinha medo e vergonha de parecer um bobo”. Mas ele responderá o que ouviu a vida inteira: “Não sei do que está falando”.
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