Criança gosta de coisas arriscadas: corrida de pneu velho na ladeira, bike street sem as hands, bike carona de caminhão, futebol de roller (haja canela), guerra com arminha de pressão (sem camisa), cuspir borracha com tubinho de caneta Bic (no olho vale mais), tratar “hoje não” e levar vuadeira nas costas na fila do hino nacional da escola e muito mais. Apertar a campainha dos vizinhos e correr também é muito arriscado e dá muita adrenalina, experimenta depois dos 20 anos pra ver como dá ainda mais emoção, acelera o coração demais. Enfim, o negocio é ser o mais malandro desde pequeno, tomar iogurte no pacote e Nescau de colherada.

Por essas e outras que eu vivia entrando em frias. No ponto de ônibus que eu esperava o Nilo Peçanha para voltar da escola pra casa, morava um cara muito louco. Ele odiava ver a galera sentada no muro dele enquanto esperavam o ônibus. Xingava e ameaçava dar porrada. E o que eu fazia toda vez que chegava para pegar o ônibus? Sentava no muro dele, claro! Certa vez meu primo resolveu dizer “vem então!”… Pra que? Eu corri demais, foram pelo menos três quadras e cheguei a passar por baixo de um caminhão que estava atravessado na pista. Fuga de cinema mesmo foi tipo filme de Bollywood, poderia até se chamar Duro de Matar Begins.

Mas a grande aventura mesmo aconteceu em outro dia, quando entramos em uma mata que PARECIA fechada, ficamos ansiosos e empolgados para desbravá-la. Era incrível, passar por cipós com nossos super facões (tínhamos mesmo) para construir nossa casa na árvore em local bem afastado. Foi emocionante até descobrir que logo a mata acabava e dava na rua debaixo. Que decepção, parecia uma floresta imensa com muitas cavernas, animais terríveis, desafios, mas na verdade era apenas um terreno muito grande.

Mas tudo bem, sem desanimar, descobrimos que ainda existia muita emoção na grande (minúscula) mata, pois uma mansão povoada por pouquíssimas pessoas e muitos pinheiros nos atraía. Fim da linha para desbravar a mata e início de uma nova missão: encher muitos sacos com pinhão. Desafio: 4 cachorros pastor-alemão, tão alemães que usavam suástica.

Caminhávamos há uma distância segura da grade e os cachorros nos acompanhavam lado a lado, babando e bufando. Estudamos o terreno, todas as entradas e percebemos que os bichinhos nos acompanhavam só até um ponto, dali pra frente um cercado os impedia de nos devorar. Tínhamos pinheiros livres por um espaço de mais ou menos 100 m² (aos 8 anos fiz esse cálculo e sabia o tamanho do território, ÓBVIU) e então podíamos recolher os pinhões do chão (não roubar, apenas recolher os que caíam).

A cerca de arame farpado não foi suficiente para nos segurar. Cortamos, invadimos e começamos a recolher os suprimentos. A tarefa tinha que ser feita agachada, assim o terreno montanhoso da mansão impedia que os serviçais nos vissem. Por dois dias, essa foi a rotina, invadir e recolher o fruto. Não era tão fácil quanto parece contando aqui, me lembro de fazer isso muito tenso e observando o tempo todo os selvagens guardiões Beckenbauer’s, para ver se algum não escapava para o nosso perímetro de ação. No terceiro dia de “trabalho” a tensão ainda era grande, mas fazíamos com mais agilidade, um pouco menos cautelosos e por isso até rolava conversa e distrações.

Conversa vai, conversa vem, quando um dos trabalhadores em uma crise de existência “desconfiou” que enxergou alguma coisa, ou ouviu algo e berrou: cachooorro!! Numa função tensa dessa, parar e analisar se o que ele falou era verdade, não dava tempo. Saímos como Jair Rodrigues sairia, em disparada. Deslizei no barro por debaixo da cerca de barriga no chão, cortei as costas (cortei bonito), corri sem parar pela mata, cortei cipós, cheguei perto da civilização, alcancei a rua, corri mais ainda, virei a esquina e entrei pra dentro de casa, ufa! Hoje não sei se realmente tinha um pastor-alemão na minha cola, mas preferi não olhar para descobrir, apenas fugi da ameaça.

Venho em breve! Retenha o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa. Apocalipse 3:11

Um alerta ativado é o suficiente para me fazer fugir da ameaça. Foi assim que reagi esse dia. A fuga ficou na minha memória por alguns detalhes: o facão chegou a cair, mas recuperei, quando cheguei em casa tinha na mão uma sacola, não cheia, mas com um saldo bom de pinhões que ainda deu uma boa assada na chapa do fogão a lenha. Eu não tinha muito quando cheguei, mas me lembro de ter saído sem nada e na “selva” dos animais domésticos, conquistei um pouquinho. Se não consegui mais foi por que não tive tempo, mas o pouco que tinha nas mãos não perdi. Foi muito trabalho e sofri as ameaças de perder o pouco que eu tinha para os devoradores.

Os devoradores virão e, em tempos que o conhecimento e os suprimentos serão escassos, também teremos que estar atentos para não perder o pouco que temos. Sejamos cautelosos, sejamos atentos para não ser surpreendidos pela mata, nem pelos cachorros, nem pela rua ou mesmo pelo falso grito de emergência que enganará, se possível, até mesmo os escolhidos. Sempre alerta!

Pois muitos virão em meu nome, dizendo: “Eu sou o Cristo!” e enganarão a muitos. Mateus 24:5

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