Eu dormia embaixo. Não que tivesse medo da altura, pelo contrário, inclusive sou pára-quedista. O curioso de dormir tão perto de um “teto” é que decoramos as marcas que ele tem. Lembro de cada marcação naquelas ripas atravessadas no caminho da vista. Guardo essas figuras na memória porque algumas formavam bichos e outras, paisagens. Mas já fui de dormir na parte de cima, e lá, da mesma forma, o teto era próximo, tão próximo que era possível tocá-lo. A sensação de alcançar tão alto assim, para uma criança, é marcante. Consigo me lembrar da primeira noite naquela altura toda.

De qualquer forma, preferia a parte de baixo, parecia ser mais protegido, como se me sentisse em um berço cercadinho que me protegia de sair e impedia que qualquer coisa pudesse entrar. Sim, porque quando somos crianças vivemos atormentados por monstros da nossa imaginação, são terríveis e cruéis. Curioso que hoje em dia, pensando melhor, caso existisse mesmo um monstro que viesse nos pegar, comeria o que está embaixo primeiro, não? Se eu fosse o monstro, faria isso. Está mais perto! Bom, eu me sentia mais protegido ali embaixo mesmo, mas não sei o motivo.

A parte de cima costumava ser do Thiaguinho. E veja só, ele tinha medo de altura (ainda tem) e costumava cair da cama com freqüência. Realmente nós não sabíamos nos proteger, deveríamos estar ao contrário nessas camas desde sempre. Eu ficaria protegido dos monstros e caso caísse, como já disse, sou pára-quedista e ele não correria o risco de cair e quebrar todos os ossos.

Bom, já com o Rei, irmão mais velho, não tinha tempo ruim, pois dormia tanto em cima quanto embaixo. É bem verdade que eu quase não lembro onde ficava a cama dele, pois já faz muito tempo que ganhou seu quarto individual e também bastante tempo que já ganhou até sua própria casa. Acho que, por isso, a imagem já não está tão fresca na minha memória. Mas não esqueço o restante, o nosso quarto costumava ser um ring de boxe, muitas meias eram usadas, as mãos eram enfaixadas e a porrada comia solta. Eu saía debaixo do meu beliche enquanto o adversário saía do outro logo que o gongo (panela) soava. Era uma emoção só, eu me divertia demais desde que meu adversário fosse o Thiaguinho, matava ele fácil, já com o Reinaldo o bicho pegava. Eu tenho pra mim que às vezes eu quase ganhava (tenho pra mim, não sei), mas, no fim, ele me nocauteava. Óbvio que sempre acabava em choro, péssima idéia para brincar.

Brigávamos muito quando o eletrônico conectado a TV irradiava as cores dos games. O vídeo game nos fez passar momentos inesquecíveis juntos, mas da mesma forma que o boxe, no fim aconteciam as brigas. A última que tenho em minha memória curta (ultimamente estou um velho de memória curta mesmo) foi uma briga que precisei sacar das estantes da mamãe os belos copos decorativos de porcelana para agredir o Rei, isso porque o controle do vídeo game já tinha voado há tempos. O meu irmão foi bonzinho nesse dia, me lembro bem que ele usou toda a sua força contra mim, mas não para revidar, simplesmente para me segurar, eu estava um tanto alterado e raciocinando pouco. Caso eu quebrasse um dos copos na cabeça dele teríamos vários problemas: ele morreria, minha mãe me mataria (pelo copo), minha mãe seria presa, meu pai ficaria depressivo e o Thiaguinho usaria essa desculpa para se enfiar nas drogas. Que cenário horrível! Que bom que não aconteceu e tivemos o desprazer de brigar muitas outras vezes, mas sempre com armas brancas.

As terríveis cenas de gladiadores faziam dos três mosqueteiros próximos, com isso papai e mamãe acalmavam os ânimos e, no balanço geral, penso: que saudade de falar com todos. Era muita briga, mas todos os problemas eram resolvidos juntos, pois os problemas eram só esses, conviver entre nós. O dia em que os beliches foram desmontados para dar lugar à camas individuais, a distância da família começou a crescer. Um quarto para três irmãos virou dois, depois o outro irmão (eu) ganhou o seu e, por consequência disso, o outro irmão finalmente ganhou o seu quarto exclusivo. Não muito tempo depois, o irmão mais velho saiu da nossa casa para morar na sua e isso vai acontecer comigo, quando eu me casar. Depois com o Thiaguinho, e assim a família que foi separada de quartos ficará realmente longe fisicamente. Para criar uma nova família, outras precisam ser desmontadas.

Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. Gênesis 2:24

Cruel? Não, é um presente! Se não pudéssemos fazer as nossas próprias famílias, aí sim ficaríamos sozinhos, pois o tempo não pára e o ser humano não consegue vencer um mal chamado pecado.

Pois o salário do pecado é a morte… Romanos 6:23

Isso ainda parece muito cruel? Lembrar que nossos familiares morrerão não é nada agradável mesmo. Será que não existe um jeito de ficar todo mundo junto, sempre?

… mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 6:23

Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos… Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. 1 Coríntios 15:51-54

Claro que sim! Nosso Deus, tão fiel e justo, não nos deixaria sem uma solução. Outro plano, criado antes mesmo que o pecado entrasse no mundo, foi feito para deixar todos juntos, para que as famílias possam vencer a morte e permanecer juntas, sem que os beliches precisem ser desmontados, aliás, criando muitos outros, pois vamos descansar juntos, pais, filhos, irmãos e amigos em um grande quarto, com muitas camas.

Felizes e santos os que participam da primeira ressurreição! A segunda morte não tem poder sobre eles; serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos. Apocalipse 20:6

Todos eternamente vivos em Cristo, essa é a promessa. Não falo aqui de uma ilusão, um sonho de viver em um céu fictício, mas de uma realidade que está prestes a acontecer. Breve Jesus vai voltar e as famílias poderão ficar juntas para sempre.

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