Um ser humano não foi feito pra ficar parado. Não é a toa que sempre novos meios de transporte são criados e outros atualizados. Aviões, carros, trens e diversas máquinas a cada dia estão mais velozes para a insaciável vontade humana de locomoção instantânea. De fábrica já saímos com pés, principal meio de transporte dos seres humanos. Eles nos levam a diversos lugares, alguns preguiçosos demais não usam a ferramenta nem pra ir à padaria, isso é verdade, mas prefiro pensar que todos utilizam esse privilégio dado por Deus.

Um homem com altura média de 1,70, costuma dar 1 passo por segundo, o que significa que para percorrer 100 metros leva o tempo médio de 100 segundos (sim, eu fiz essa conta e por isso não coloco aqui a fonte). Dependendo do tipo de piso esse tempo pode variar, por exemplo, andando nas calçadas do centro da cidade de Curitiba. Elas exigem o uso de pneus de chuva, mesmo sem chuva.

Para usar esse privilégio necessitamos ter saúde, mas somos por diversas vezes relaxados com nossa saúde, não é verdade? Essa semana eu estava parecido com um senhor de 95 anos tuberculoso, tossindo a 5 dias. O pior dessa tosse é que ela vem em qual quer momento, não respeita nem horário e muito menos local, seja dentro do ônibus, no trabalho, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, ela vem.

Sabe o que eu fiz nesses cinco dias para sanar o problema da tosse? Nada! No sexto dia resolvi tomar um xarope, por conta própria (sim porque eu sou médico ainda por cima). O sexto dia terminou, fui dormir lá pelas 10 da noite, mas ha 1 hora da manhã estava acordado e na pior das crises. A garganta não tinha catarro, eram larvas vulcânicas. Acordado e agonizando às 3 da manhã não agüentei, levantei da cama como uma criança chorona, acordei o pai e disse: pai, estou ruim, me leva no médico?

Ah finalmente o machão se entregou e recorreu ao pai para sobreviver. Meu pai muito sábio faz o que tem que ser feito para me salvar: chamou a mamãe. O que seriamos de nós homens sem a mamãe, não é? (a mãe estava na casa do meu irmão, que fica a alguns metros da minha). Ela veio pra casa e preparou um coquetel de chás, pílulas e atenção. Deitou do meu lado na madrugada e por pouquíssimas horas consegui me acalmar, não dormir. O dia amanheceu e o que me restou foi usar minhas ultimas forças para me locomover. Usando os pés e as máquinas corri para encontrar um médico que solucionasse o problema (sou médico, mas minha especialidade é infarto do pé).

Um tempo de viagem, caminhadas (no ritmo de alguém atacado por um chupa-cabras) e cheguei ao médico. Duas horas de espera para ser atendido, entro na sala do medico e mostro o coquetel de remédios que estava tomando por conta própria. Ao olhar minha garganta com aquele palitinho de sorvete a decisão irrevogável foi: infecção grave. Vá até a sala de aplicações (nem mesmo o Superior Tribunal de Justiça mudaria isso).

Aplicações? Não, ele não é do banco e não está me oferecendo um título de capitalização, é injeção mesmo. Tudo bem, nunca tive medo de injeções, agulhas não me apavoram, inclusive sou doador de sangue. Mas vamos lá pra salinha de aplicações, com a receita (que diz: USO: VIA INTRAMUSCULAR = na bunda)resolver logo isso.

Cheguei à porta da sala de vacinas e minha fisionomia era de tranqüilidade e calma. Na fila fiquei conversando com uma senhora que me perguntou: vai tomar qual? (Sabe que eu nem tinha lido na receita o que era). Leio em voz alta para: Penicilina-Benzatina 1.2000.000 UI (o nome tem até um “UI”no final).  

 

 

 

Pensei comigo: espera, esse nome disfarçado não é a famosa benzetacíl?

A resposta da senhorinha foi: ixeeeee, essa você sabe que é aquela bezetacil né?

Sim sei, claro que sei (preferia não saber). A enfermeira me chamou e eu entrei na sala, com a fisionomia já bem abatida. Curioso é ver o clima que essa bendita aplicação cria em todos, a senhora da fila usou seu “ixeeee” para me apavorar e agora a enfermeira que pega o papel, paralisa ao ler a receita e pergunta: já tomou uma DESSA antes?

A injeção é forte e todo o esquema criado em volta da expectativa da aplicação dela é pior. A orientação da enfermeira é simples: relaxe a perna. Caso você caro leitor ainda não tenha tomado essa injeção na vida e não faça idéia de como é a sensação, compare a de um tiro de fuzil na nádega ou então com sentar em uma granada. Se ainda não teve nenhuma dessas experiências, realmente não tem nada que se compare para ilustrar o momento para você.

A enfermeira terminou a aplicação e falou que eu podia ir embora. Como se fosse simples ir embora depois disso. Eles deveriam no mínimo ceder uma ambulância que leve em domicílio cada vítima. Ai vem outra orientação eficaz da enfermeira: vai devagarinho, já esquenta o músculo então para a dor. Indo para casa ferido eu percorri 200 metros para chegar ao ponto de ônibus, nos primeiros 100 metros a descida colaborou e fiz a média de 1 passo a cada 20 segundos. Nos próximos 100 metros a subida dificultou, mas mantive a média de 1 para 20, só que 20 minutos. Toda a minha velocidade e habilidade nas calçadas lisas da cidade estavam comprometidas.

Avisei no meu trabalho que faltei por ter passado mal e ter ido ao médico. Meu colega de trabalho perguntou: mas e ai, agora ta melhor? Respondi: Melhor? Olha, que eu me lembre antes eu não mancava, eu estou pior, sem garganta e sem perna.

Uma injeção de penicilina nos da a sensação de que nada melhorou, pelo contrário. Mas é preciso lembrar que nenhum remédio nos traz solução imediata, no outro dia sentiremos os benefícios da dose.

Entrega teu caminho ao Senhor; confia nEle, e Ele tudo fará.” Salmos 35:5

Quando se sentir incomodado com uma dor, aquela dorzinha pequena que quase não te atrapalha, não deixe passar o tempo antes de resolver. Não deixe passar, um, dois, três ou mais dias com ela, porque a tendência é que ela piore. Quando ela acumular vai te incomodar e te tirar o sono a tal ponto que você não agüentará mais. A noite vai entrando e você sentirá uma necessidade urgente de resolver o problema, pois a dor não te deixa dormir.

Não viva relaxado no cuidado dessa dor que pede solução, não espere que vire uma infecção para recorrer ao seu pai e pedir ajuda. Você pode chamá-lo a qualquer momento, não é preciso que chegue a madrugada. Muitas vezes recorremos a Deus tão tarde com essa infecção que o remédio vem como uma injeção de penicilina.

Rasga sua carne, te derruba e faz caminhar na estrada da vida em passos muito mais lentos. Faz você pensar que nada foi feito para te ajudar, a dor só aumentou. Mas lembre-se, quando levamos uma dolorida injeção de penicilina o efeito aparece um dia depois. Se você entregou nas mãos do Pai, confie nEle, mesmo quando parecer que a inflamação não melhorou e agora as dores aumentaram. É exatamente nesse momento que demonstramos a confiança em Deus, não quando tudo está muito bom e temos evidências, mas quando nenhuma amostra ou vestígio de sua atuação está aparente.

Confiar em Deus é esperar que mesmo que tudo piore a cura virá no dia seguinte da dor.

A solução visível para nós é poder andar ainda mais rápido, mas por vezes Deus nos faz mancar, diminuir o ritmo enquanto nos cura. Melhor que andar rápido e sozinho é mancar na companhia do Pai.

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