Todos os dias eram de ir ao banco. Um punhado de cheques e às vezes algum dinheiro. Missão: depositar tudo na conta da empresa. Saia com minha maletinha do Bank Boston (poucos tinham), andava algumas quadras e no caminho encontrava diversas pessoas, aqueles tipos que se vê todo dia. Oi pro pessoal da papelaria, a galera da panificadora, do creps e é claro a Ana Paula, da loja eu revelava as fotos para o chefe (confesso que ela me enchia os olhos).

Obs: Loja que se revela foto, como chama? Ou nem chama? Alguém “revela” fotos hoje em dia? (Nem máquina de filme existe mais).

Vez ou outra eu tinha que ir ao cartório, certidões, protestos e etc. Uma bela tarde sai para a rotina dos bancos e fui em direção ao cartório. Esse era longe, numa rua daquelas de castigar o aprendiz da auto-escola, paralelepípedo e inclinada. Na entrada tinha uma escada que levava a porta de acesso, mais inclinada que a rampa chamada de rua, o exercício era forte pra chegar até lá. Mas nesse dia, além das dificuldades todas que existiam na pista, despencou uma chuva que não era uma garoa do tipo que alaga São Paulo (infelizmente qualquer garoa alaga a grande cidade), mas uma chuva destruidora de penteados produzidos com gel Bozzano, Laquê ou a fenomenal cera para modelar Keune Shaping Fibres. Todas essas dificuldades acrescentando ainda o tempero do tempo que era curto me fizeram desconcentrar no traçado no momento da saída dos boxes, me perdi em uma chicane, subi na zebra e escorreguei no seja bem vindo bordado no tapete do estabelecimento. A queda foi em slow motion e mapeei o caminho que os olhos fizeram. Primeiro vi o portão ficando maior, cheguei a ver suas pontas em forma de flecha, o arame eletrochocante, um pouco da ponta do totem que dizia Cartório de Registro de imóveis, a imagem foi ficando azul do céu, branco das nuvens e assim alternando, até que escutei o barulho dos meus miolos se chocando contra as paredes do meu crânio enquanto o crânio se chocava com a lajota. Sabe aqueles tombos que as pernas sobem e os joelhos vão encostar lá na orelha na queda? Depois disso sentia tontura. Enquanto tentava colocar as idéias no lugar pra entender o que aconteceu escutava risos. Percebi que não me machuquei, nem fratura exposta e nem sangue, então pensei: que ridículo, que vergonha! Se existisse um botão pra mudar de fase como no vídeo game seria agora à hora de apertar. Olhar pra trás nem pensar, apenas seguir em frente sem saber quem debochou da minha cara, foi o melhor a fazer. Fiquei irritado com as pessoas que riram, me senti humilhado, porém nenhum deles puxou meu tapete, cai sozinho.

Portanto assim como vocês receberam Cristo Jesus, continuem a andar nEle, enraizados e edificados nEle, firmados na fé, como foram ensinados, transbordando de gratidão. Colossenses 2:6;7

Cai, fui ridicularizado, mas não posso acusar ninguém por ter feito aquilo comigo, convenhamos que um tapete de boas vindas, posicionado em uma lajota e em dia de chuva não era nada seguro pra mim. Eu simplesmente pisei onde era arriscado. Apesar da pressa, da chuva que caia e do cansaço de um dia de trabalho eu deveria ter ficado atento, pois as dificuldades aparecem nos momentos em que nos descuidamos e tiramos os olhos do caminho. Seguro é andar onde já conhecemos, em terra firme, especialmente preparada para os nossos calçados e com um antiderrapante chamado Jesus. Mais importante que conhecer o caminho é ter a capacidade de concentração para não desviar dele. O caminho ao lado de Jesus é inclinado, com paralelepípedos e escadas. Uma chuva provavelmente te pegue pelo caminho, mas quando chegar não vai existir um tapete escorregadio, as boas vindas estarão escritas no chão, com o sangue do cordeiro de Deus, nosso Jesus Cristo.

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