Dia de sol, brisa gostosa, mais ou menos 14:00 hrs, uma bola de futebol, correria da calçada de casa até o meio da rua, no asfalto. Um par de chinelos pretos na distância de 3 pés tamanho 32, 20 metros pra frente outro par de chinelos verdes também na distância de três pés, que não eram com certeza do mesmo tamanho, talvez um 35 marcado pelo zagueiro do lado de lá, um pouco maior que os demais coleguinhas. Esse era o campo criado para as melhores partidas que o mundo jamais viu, as jogadas maravilhosas, mirabolantes, malabarísticas entre eu e meus vizinhos de rua. Nosso campo de gramado cinza e mais rígido que os tradicionais volta e meia era invadido por máquinas com rodas de borracha em alta velocidade que custavam em alguns momentos nossas traves. Brincávamos nesse momento soltando a frase “ah, mas agora virou rua isso aqui?”. Impossível deixar de comentar que quando quem passava era a moça do corpo moreno, do sol de Ipanema, do balançar que parecia um poema, a coisa mais linda que já vimos passar a frase mudava para “ah, mas virou aeroporto isso aqui?”.

Dia de sol, brisa gostosa, mais ou menos 14:oo hrs, calma o texto não está duplicado, só estou contando sobre uma deliciosa rotina. Mas isso é sobre outro dia, e os dias jamais são iguais, dessa vez carregamos mais instrumentos, uma bola pequena revestida de tecido, verde com marcas brancas, dois tacos de madeira confeccionados com carinho pelo Tio Paletó. Isso mesmo, Tio Paletó. Além da bolinha e tacos ainda carregávamos duas latas de azeite Liza para virar alvo da poderosa rebatida dos meninos de braço forte, forte feito um grilo. No asfalto desenhávamos com pedaços de tijolo as casinhas que serviriam de base para o azeite (nossa pareceu uma receita de bolo agora). Nosso campo volta e meia era invadido por máquinas com rodas de borracha em alta velocidade que custavam em alguns momentos uma lata de azeite. Nesse caso era muito pior que os chinelos, pois ela precisa parar em pé e uma pobre lata atropelada por outra muito maior como peso de algumas toneladas jamais resistiria ficar em posição de mastro. E dá-lhe correria para conseguir com alguma mãe da vizinhança outra lata daquela gordura, pois um jogo de tal importância jamais poderia ser cancelado, eram clássicos mundiais.  

Dia de sol, brisa gostosa, mais ou menos 14:oo hrs, e agora saíamos para soltar nossas incríveis  pipas que rasgavam o céu, desafiavam os pássaros e até os boeings. Na nossa imaginação, pelo menos, era essa a altitude que as sedas e painas eram levadas pelo firme fio 10 roubado da máquina de costura da Vó Olivia. Nesses belos dias também desfrutávamos de passeios com nossos super sapatos modernos de quatro rodas ordenadas em fila indiana que nos levavam a uma sensação de liberdade a mais de 80 km/h rasgando o asfalto. Exagerei claro, meus patins não chegavam a tanto, afinal as minhas rodinhas não eram de gel, mas se fossem de gel…. não tenho dúvidas que chegaria a essa velocidade. A minha rua era um parque de diversões. Essa rotina de brincadeiras na rua foi diminuindo à medida que crescíamos, quando adolescentes o máximo que fazíamos era sentar em um banco de madeira, feito por dois mestres da engenharia chamados Klebinho e Retcha. Ali trocávamos idéias, compartilhávamos sonhos, falávamos das expectativas para a vida e guardávamos algumas tradições, como soltar a frase “ah, mas virou aeroporto isso aqui?”quando as garotas de Ipanema passavam.

Hoje em dia saio para trabalhar cedo, volto à noite e todos os meus amigos da rua foram abduzidos. Não vejo mais nenhum, não sei da vida de mais ninguém e todas as expectativas que tínhamos compartilhado da vida viraram hoje uma só pergunta pra mim, será que deu tudo certo? Além de não ver mais meus amigos, saio e nem sequer consigo ver o parque de diversões, pois está lotado, entupido, movimentado e ininterruptamente vivo sustentando as toneladas dos automóveis, realmente fizeram dele, agora de forma oficial, uma rua. Quando o parque de diversões vira rua, as crianças são obrigadas a fugir.

E pra onde vão essas crianças? Correm pro colo da mãe? Não, correm pra dentro dos atropeladores de latinha e chinelo do passado. Na verdade elas não fugiram da rua, só mudaram a forma de enxergá-la, continuam na mesma avenida, sim porque cresceu e o status de rua não serve mais. Agora não prestam atenção nos detalhes, passam em alta velocidade, contra o vento, vendo as antigas arvores que subiam para brincar e montar seus clubes, desfocadas na vista incapaz de acompanhar, incapaz de assimilar o que se vê pela velocidade com que viajam. E esse cenário não é exclusivo da minha rua, é um retrato do que aconteceu com todas as ruas nos últimos anos, algo que aconteceu com o mundo nos últimos tempos, pois as pessoas já não têm mais tempo para nada, vivem de suas casas pro trabalho, do trabalho pra sua faculdade, faculdade pra casa de novo. Não param nem sequer para ouvir alguém que na rua tenta abordar com lágrimas nos olhos, maltrapilho pedindo ajuda. Mal reparam no belíssimo prédio novo construído no caminho de casa, não fazem idéia de quem são as pessoas que esbarram todos os dias, no mesmo ônibus. As pessoas não param nem para respirar. Nem sequer reparam nas mudanças que sua filha passa, perdem o tempo mais precioso do aprendizado, a primeira palavra, o aprender a andar e todas as outras maravilhas que o ser humano é capaz de fazer quando criança. E a desculpa é sempre a mesma: estou atrasado. Buscamos o tempo todo realizar façanhas em nossas vidas, finalmente o carro sonhado, a casa e uma família formada. E pra fazer isso tudo nos esquecemos de alguém importante e fundamental na realização de tudo. Seria possível achar um tempo para Deus?

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mateus 6:31,32

A desculpa para não brincar mais, nem se importar com a vida de seus amigos tão próximos é óbviamente o trabalho, que nos deixa maluco o tempo todo, que nos stressa e esgota nossas forças. Ou ainda a faculdade, que rouba o restinho do tempo que talvez sobraria para isso. Assim, impossível andar de patins, soltar pipa, jogar betis e futebol, pois não temos tempo. Vivemos em meio a tempestades de documentos e relatórios solicitados de ultima hora e pra ontem pela presidência, tarefas acadêmicas que nos toman noite a dentro ocupando nossas mentes com cálculos, cores, planilha, redações, layouts e apresentações a serem avaliadas por implacáveis perítos que decidem o futuro de um semestre todo da nossa vida. Poxa um semestre perdido é um terror, pois já não temos tempo pra nada, estamos sempre atrasados.  

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia, porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. 2 Pedro 3:9

Mas não podemos esquecer que o tempo que tivemos para brincar no passado, trabalhar e estudar hoje foram reservados e entregues especialmente para nós, por quem nos ama e nos dá o sustento para a cada dia voltar a nossa deliciosa rotina de viver. Esse alguém, dono do tempo não se preocupa com a demora que você leva para encontrá-lo, é longânimo. Simplesmente te espera e quando você parar para conversar com Ele escutará: não tenho pressa, pode falar meu filho. Pare um pouquinho e converse com quem tanto te espera. Não será uma perda de tempo, mas sim uma prorrogação eterna dele.

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