Mal acostumado. É como me defino pra algumas coisas na vida. Vamos aos exemplos: Estou eu e um grande amigo, num passeio dos mais fantásticos e cansativos que conheço, pilotando um carro conversível de tração nas quatro rodas, em uma pista  perfeita, sem buracos, uma beleza de pavimentação do tipo que eu não vejo ali no Pilarzinho. Não muito emborrachada, isso é verdade, organização também não tem muito, é um transito caótico como o que conheci em Porto Alegre no último feriado e acho que isso que esgota. Esse cenário lindo que narro é de um supermercado. Claro tem gente que odeia essa tarefa, eu gosto, me divirto apesar da fadiga. Das áreas desse grande complexo a que menos conheço obviamente é a de plantas comestíveis, comestíveis pra vocês vegetarianos e adeptos, pra mim uma tortura. Pela falta de carinho e interesse por tal alimento, passear nessa área me faz reconhecer pouca coisa, um tomate aqui, um repolho ali, uma alface talvez (se ele não estiver disfarçado de escarola). Depois de certo tempo passeando fui acionado: pia, vai pegando a rúcula ali enquanto vou buscar a acelga. HEIN? Misericórdia, o que serão essas duas coisas? Pra que lado eu Fujo? Por favor, alguém me empresta um notebook pra eu acessar o Google e descobrir o que é isso! O mercado sempre me coloca nessas situações. Há poucos dias o telefone no meu trabalho toca atendo com aquela voz que só fazemos no trabalho, imponente, séria e soltando a identificação LEANDRO. A voz responde: oi fio, é a mãe. Você quer que eu faça alguma coisa pro almoço de sábado, então me traga cheiro verde. Tudo bem mãe pode deixar! Fácil demais, cheiro verde. Já sei que fica perto da bancada do tomate, ou então perto da alface, o que pode talvez, me atrapalhar é tudo verde, mas tudo bem, eu sei ler e em algum local vou ler AQUI CHEIRO VERDE POR 50 CENTAVOS. Confiante eu me dirijo pra seção de hortifrutigranjeiros e o que vejo é uma baita floresta com plantas e mais plantas, todas iguais com suas folhas verdes. Cabeça branca, casaquinho de lã, pele enrugada pelo tempo, tempo que gera um conhecimento na vida e na seção de cheiro verde que sem dúvida iria me ajudar. Com um suspeito alvo na mão, olho pra essa distinta senhora, minha esperança, aponto o maço de matos pra ela e digo: bom dia senhora, sabe me dizer se isso aqui é cheiro verde? A resposta vem: Sim, salsinha. Confundi-me e perguntei de novo: cheiro verde? Sim, salsinha! Gente, o que é isso? O tal do cheiro verde não se chama cheiro verde? O nome dele é salsinha? Ou salsinha é o sabor do cheiro verde? Por exemplo: eu compro Miojo, nos sabores carne ou frango, Ruffles churrasco ou cebola e salsa (Ou seria Ruffles cebola e cheiro verde?). Viram como isso é difícil? Bom, vou levar, afinal de contas a distinta vovózinha afirmou com uma intensidade que SIM SALSINHA que eu só podia estar levando o que minha mãe queria. Caso minha mãe pergunte: o que é isso? Eu respondo: um cheiro verde sabor salsinha, não tinha mais o churrasco barbecue. Isso é o Supermercado pra mim em algumas seções, um drama.

Depois de um bom banho todas as noites eu durmo confortavelmente, no macio do colchão, envolvido nas fantásticas cobertas limpas e cheirosas que minha mãe deixa pra mim. A noite é sempre gostosa, agradável, quando me desperto é uma correria, desligo o despertador, pulo da cama, abro o guarda roupa, fuço, vira e revira, localizo a cueca, a meia, a calça e onde está a camisa? Mãe onde está minha camisa nova, aquela branca e com listras? Enquanto tomo meu banho ela liga na tomada o cabo que gera energia e aquece o ferro, põe água no equipamento e com aquelas mãos mágicas e talentosas, cuidadosamente minha camisa é preparada.  A gola é engomada, as mangas lisas, o vinco, o cuidado com a estampa. Saio do banho e um beijo no rosto… tchau mãe, até depois! A cama que me proporcionou descanso ficou do mesmo jeito depois do pulo desesperado que desligava o despertador. E quando chego à noite, minhas cobertas, limpas, cheirosas estão dobradas com carinho em cima da minha cama. Realmente, sou em muitas situações um mal acostumado. O tamanho do amor de minha mãe em fazer todas essas coisas, sempre com muita dedicação me surpreende. Quando chegou a noite não sou cobrado pela cama desarrumada, quando erro a compra do mercado não sou criticado, quando escolho a camisa que está amassada por simples vaidade ao invés de pegar outra entre as dez que ela mesma deixou separada no cabide pra mim a única coisa que escuto é: vai tomando banho que eu já levo pra você. Quando saio do banho tenho além da camisa que pedi, muitas vezes a toalha seca que claro, eu esqueci de pegar. Isso tudo de graça, é a entrega de amor imenso que aprendo todos os dias com minha mãe.

 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” Efésios 2:8

Você é filho de um Pai amoroso que habita nos altos céus, Ele aponta a direção onde você pode encontrar a rúcula que tanto procura, faz a colheita do cheiro verde e te entrega para temperar sua vida, passa com carinho sua camisa e não esquece do pulôver pra te aquecer quando sai na friagem, te prepara o mais macio colchão e as mais envolventes cobertas na noite fria e silenciosa pra te fazer dormir com segurança e conforto. Deus nos porporciona coisas incríveis, e faz dos homens um ser mal acostumados. É comun que saiamos de casa cedo sem nem perceber os milagres que Deus nos entrega como o de respirar, andar, sorrir… o milagre de viver.

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.” Romanos 5: 1;2

E esses mal acostumados precisam lembrar que a única coisa a ser feita, é ser grato. Atrofiados pela mordomia precisamos exercitar a memória e recordar sempre o quanto Deus fez e ainda faz por nós. Depois disso aceitar, simplesmente aceitar, pois jamais ouvirá uma cobrança pelas providências. E enquanto você se prepara no banho dessa terra Ele diz: Meu filho, prepare-se que em breve voltarei e te envolverei em toalhas limpas e secas.

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