Sou um ser humano comum, nasci em um hospital como todos os outros, ou nem todos, enfim. Minha família sempre teve casa própria, conheci meus avós, a não ser meu avô por parte de mãe, já falecido quando nasci. Como toda criança, fui aprender um pouco de matemática, português, caligrafia entre outras coisas em um ambiente loco, cheio de outras crianças que correm e gritam chamado de escola. Os primeiros momentos lá dentro foram terríveis, afinal de contas minha mãe, aquela que eu sempre confiei, me ensinou tudo até ali, corria me entregar a mamadeira quando eu gritava “mamaaaaaaa”, acabara de me abandonar. Me entregou nas mãos de uma mulher que eu mal sabia falar o nome, usava um macacão vermelho, tinha cabelos loiros, enrolados e não se parecia nem um pouco com a mamãe sem coração.  Tá, logo isso passou e aquela mulher estranha se tornou uma das pessoas a quem eu mais me apeguei, isso quem diz é minha mãe, porque de fato não me lembro de nada a não ser do macacão do Saci-Pererê que ela usava. Essa época em que eu usava um aventalzinho verde, sandália de couro franciscana e uma lancheira cinza com uma foto do Rambo que era sensacional porque vinha com um copo térmico de ultima geração, protegia meu sanduba, iogurtes, frutas e outras 437 variedades de alimento que minha mãe milagrosamente acomodava em tão pouco espaço, passou. E enquanto o tempo passa e nós crianças crescemos vemos as dificuldades aumentando, temos mais responsabilidades e responsabilidade é igual a dificuldades. Algumas matérias pra mim eram terríveis, pois cuidar da letra no caderno de caligrafia cheio de listrar azuis verticais, depois receber um de matemática que tinha linhas azuis verticais e horizontais formando espaços minúsculos e dentro desses espaços inserir um punhado de números em sintonia para que no final o resultado fosse correto, ah era impossível. Era o que esperava uma senhorinha muito simpática e de olhos puxados que me cobrava nessa época de 4ª série. Isso tudo pra mim era difícil tanto quanto hoje aprender japonês em braile.

Um dia de escuridão e chuva de granizo chegou em minha vida quando recebi da minha professora o resultado de uma prova, feita um dia antes. Sob muita pressão, que eu mesmo coloquei em mim e o que fez do meu resultado um atragédia. A letra tremida nos pequenos espaços do papel sulfite carbonado cheirando a álcool me fez ter lembranças por muitos anos da notificação que vinha acima. No cabeçalho um grande círculo desenhado em caneta vermelha, era do tamanho da terra e ardia como se olhasse direto para o sol, com dois traços embaixo para dar ainda mais ênfase e vergonha estava em evidência um ZERO. Fiquei assustado, pensativo, olhando pra desgraça e tentando entender porque não estudei mais, porque deixei isso acontecer, como pude chegar a esse ponto? Como meu pai vai receber essa noticia? Saí do colégio em silêncio, não fiz piada com ninguém como de costume, simplesmente andei até o ponto de ônibus e esperei como quem espera o carrasco. O ônibus pra mim era um monstro que apontou na curva enquanto as pessoas se movimentaram e sinalizavam para embarcar. Subi os degraus em câmera lenta, olhando para cada um como se me despedisse dessa vida, pois a única coisa que me passava pela cabeça era: meu pai vai me matar. Visivelmente abatido, desci do ônibus, a parada é até hoje exatamente na frente da minha casa. Não atravessei a rua, apenas parei por alguns minutos olhando pra placa que carregava o nome da mercearia do meu pai e pensando em como dizer dar a notícia. Quem sabe alguma cosia que eu dissesse pudesse fazer ele ao invés de me matar logo, ainda conceder um ultimo pedido. Eu talvez pedisse batata doce, minha mãe sempre fez e eu adoro. Olhando pro asfalto e tomando coragem pra entrar em casa um anjo enviado pelo senhor aparece, meu tio Pedro. Ele me da oi, e pergunta se está tudo bem, sem conseguir responder não agüento e desabafo pra ele o que tanto me incomoda e me deixa angustiado. Em lagrimas eu digo: eu tirei nota baixa, o pai vai brigaaaaaaar! Esse meu tio é irmão do meu pai, conhecendo ele, ri da minha cara, me puxa pelo braço e fala: vem comigo. Eu penso comigo, não ele não entendeu, riu de mim, deve estar loco, meu pai vai mesmo me matar. Lembro-me de subir as escadas, passar pela porta de metal marrom, o balcão na cor de madeira e tampo amarelo com expositor de vidro para os doces. Sou entregue a minha mãe pelo anjo que contou a história pra ela e logo correu pra dentro de casa adiantar o assunto para o meu pai. Minha mãe secava minhas lágrimas e dizia pra eu ter calma, eu só pensava “ah fácil falar, não é você quem vai morrer”. Nessa época meu pai usava barba, era maior que hoje, gordo, forte e apesar de baixinho, pra mim com estatura passando pouco mais do primeiro metro, era um gigante como o que estampava minha lancheira. Depois de alguns minutos ele apareceu me chamou na sala, agachou para alcançar meus olhos que fugiam desesperados para o chão, o teto, as paredes porque temiam o que os olhos dele poderiam fazer. Vai que meu pai soltava um raio lazer e eu explodia? Ele me segurou pelos braços, não firme, mas com cuidado, me pediu atenção, dizendo: filho olha pra mim. E dos olhos que eu temia sair fogo, o que eu vi foi um mar de água cristalina pedindo: por favor, não tenha medo de mim. Meu pai me abraçou, e tirou naquele momento todo o pavor e medo que eu tinha da sua figura. A barba, ou o tamanho dele não eram mais de assustar, o rosto aveludado me aquecia quando pequeno, os braços me envolviam e protegiam, mas com o passar do tempo cresci, me afastei dele e esqueci que o seu tamanho todo era e sempre seria só o meu abrigo. “Quero te ajudar, vamos estudar para a próxima prova?” Foi o que ouvi logo em seguida.

“Então disse Deus: façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” Gênesis 1:26

“Criou Deus o Homem á sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” Gênesis 1:27

 Um pai amoroso que o criou, o fez a sua imagem e semelhança, desde pequeno cuidou, aqueceu e te protegeu com seus braços poderosos jamais o abandona, por pior que seja sua nota. Não tenha medo de entregar os seus problemas a Ele, não fuja de seu olhar como quem foge de um raio poderoso que te partirá ao meio assim que souber de seus erros. Essa imagem é só algo destorcido em sua memória pelo passar do tempo. A vida não é simples, suportar as provações que o inimigo nos mostra, nos joga a frente a todo o momento não é de maneira nenhuma como montar um quebra cabeça de seis peças, é maior, difícil como um de quinze mil encaixes dos mais variados. Mas não esqueça que você anda com Deus, o seu pai amoroso que não está aqui para te punir, mas para te ouvir. Nesse momento Ele se agacha para buscar seus olhos e escutar sua voz declarando suas dificuldades, confessando suas quedas, fracassos e suas notas vermelhas com um convite no olhar cheio de lágrimas de amor, num mar infinito de compreensão dizendo: vamos estudar para a próxima prova?  

Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. 1 João 1:9

Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. 1 João 2:1

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